Doença do Silicone (Breast Implant Illness): o que é, sintomas e quando considerar o explante
Dra. Mariana Alcantara
CRM-SP 150504 | RQE 65.761
Cirurgiã plástica formada pela UNIFESP e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Atua em cirurgia mamária estética e reparadora, com foco em indicação criteriosa, segurança, naturalidade e respeito à individualidade de cada paciente.
O que você vai aprender: por que a Doença do Silicone tem gerado tantas dúvidas nos últimos anos, quais sintomas são mais frequentemente relatados e como esse tema é compreendido atualmente pela ciência.
A Doença do Silicone, também conhecida internacionalmente como Breast Implant Illness (BII), é um termo utilizado para descrever um conjunto de sintomas sistêmicos relatados por algumas mulheres com implantes mamários.
Fadiga persistente, dores articulares, alterações cognitivas, queda de cabelo, ansiedade e outros sintomas têm sido associados por algumas pacientes à presença das próteses.
Embora a relação entre implantes mamários e esses sintomas ainda esteja sendo estudada, o tema vem recebendo crescente atenção da comunidade científica e das agências regulatórias internacionais.
Em muitos casos, a investigação médica é necessária para descartar outras causas antes de relacionar os sintomas relatados aos implantes mamários.
Principais pontos que você precisa saber
- A Doença do Silicone também é conhecida como Breast Implant Illness (BII).
- Não existe exame específico capaz de confirmar o diagnóstico.
- Os sintomas podem incluir fadiga, dores articulares e/ou musculares, alterações cognitivas, queda de cabelo e outros.
- Nem toda mulher com prótese desenvolverá sintomas relacionados ao implante
- O diagnóstico é clínico e envolve exclusão de outras doenças
- Algumas pacientes relatam melhora dos sintomas após o explante mamário.
- A decisão sobre retirada dos implantes deve ser individualizada.
O que é a Doença do Silicone?
A Doença do Silicone, também conhecida como Breast Implant Illness, não é uma doença única com critérios diagnósticos universais.
O termo "Doença do Silicone" foi adotado por pacientes e médicos para descrever um conjunto de sintomas sistêmicos relatados por algumas mulheres com implantes mamários, mesmo quando os exames demonstram próteses íntegras e sem alterações aparentes.
Atualmente, ainda existem discussões científicas sobre os mecanismos fisiopatológicos envolvidos e sobre quais pacientes podem ser mais suscetíveis ao desenvolvimento desses sintomas.
O que causa a Doença do Silicone?
Até o momento, a causa da Doença do Silicone permanece controversa e não completamente esclarecida.
A principal hipótese envolve uma resposta inflamatória e imunológica crônica, desencadeada pela presença dos implantes de silicone em pacientes suscetíveis. Entretanto, ainda não existe consenso científico definitivo sobre os mecanismos envolvidos.
Quais são os sintomas da Doença do Silicone?
Os sintomas relatados podem variar de uma paciente para outra e são inespecíficos. No total, 98 sintomas diferentes foram identificados na literatura.¹
Os sintomas mais frequentemente reportados são:
- Fadiga persistente
- Dor articular
- Dor muscular
- Alterações de memória e concentração
- Rigidez matinal
- Formigamentos e dormências
- Linfadenopatia (aparecimento de "ínguas")
- Queda de cabelo
- Sintomas gastrointestinais
- Depressão/Ansiedade
Dentre esses sintomas, os mais frequentemente associados à BII são fadiga (58,3-88%), dor articular (51-71%) e dor muscular (44-48%).²
A presença desses sintomas não significa necessariamente que a paciente tenha Doença do Silicone, já que diversas outras condições médicas podem provocar manifestações semelhantes.
Quando suspeitar da Doença do Silicone?
Muitas pacientes procuram avaliação após meses ou anos convivendo com sintomas como fadiga, dores musculares, dores articulares, dificuldade de concentração ou queda de cabelo, sem encontrar uma explicação clara.
Embora esses sintomas possam estar relacionados a diversas condições médicas, algumas mulheres questionam se os implantes podem estar contribuindo para o quadro.
Determinar essa possível relação é um desafio, pois não existem testes específicos para BII. A investigação baseia-se na avaliação clínica, na relação temporal entre os sintomas e a colocação dos implantes e na exclusão de outras causas.
Por esse motivo, devem ser considerados:
- Critérios clínicos: sintomas relatados pela paciente
- Relação temporal: início dos sintomas após a colocação dos implantes
- Exclusão de outras causas: investigação de condições médicas que possam explicar os sintomas antes de atribuí-los aos implantes.
Como saber se meus sintomas podem estar relacionados ao silicone?
Nem toda mulher com implantes mamários e sintomas inespecíficos apresenta Doença do Silicone.
A suspeita costuma ser maior quando esses sintomas surgem após a colocação dos implantes de silicone, persistem por longos períodos, impactam a qualidade de vida e não são explicados por outras condições clínicas, hormonais, reumatológicas ou imunológicas.
Cada caso deve ser analisado individualmente, considerando histórico pessoal, exames de investigação diagnóstica realizados e evolução dos sintomas ao longo do tempo.
A Doença do Silicone pode aparecer muitos anos após a cirurgia?
Sim.
A literatura mostra que existe um período variável entre a colocação do implante e o desenvolvimento de sintomas. Em média, os sintomas aparecem 6,4 anos após a colocação dos implantes.³
Existe exame para diagnosticar Doença do Silicone?
Não. Atualmente não existe exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmar ou excluir o diagnóstico de Doença do Silicone.
A avaliação costuma incluir:
- histórico clínico detalhado;
- análise dos sintomas e de sua evolução;
- exames laboratoriais e marcadores autoimunes;
- exames de imagem para avaliar as mamas e os implantes;
- exclusão de outras condições médicas que possam explicar os sintomas.
Portanto, o diagnóstico é essencialmente clínico e de exclusão. Os exames ajudam na investigação, mas não confirmam, isoladamente, a relação entre os sintomas e os implantes.
A Doença do Silicone é reconhecida oficialmente?
A Doença do Silicone é amplamente discutida por médicos, pacientes e órgãos regulatórios internacionais, mas ainda não é oficialmente reconhecida como um diagnóstico formal.
Atualmente, não existem critérios diagnósticos padronizados e seus mecanismos fisiopatológicos permanecem incertos.
Isso não significa que os sintomas relatados pelas pacientes devam ser ignorados. Eles precisam ser avaliados de forma cuidadosa, com investigação adequada para identificar ou excluir outras condições médicas.
Quando os sintomas persistem, afetam a qualidade de vida e outras causas já foram investigadas, a retirada dos implantes pode ser considerada e discutida com a paciente.
Doença do Silicone, Síndrome ASIA e BIA-ALCL: qual a diferença?
Esses termos costumam gerar confusão em discussões sobre implantes mamários, mas representam situações distintas.
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Doença do Silicone (BII) | Conjunto de sintomas sistêmicos relatados por algumas pacientes com implantes mamários. |
| Síndrome ASIA (Síndrome Autoimune Induzida por Adjuvantes) | Conceito abrangente que descreve manifestações autoimunes ou inflamatórias possivelmente desencadeadas por adjuvantes como sais de alumínio presentes em algumas vacinas, o esqualeno, o silicone e outros. |
| BIA-ALCL | Tipo raro de linfoma que surge na cápsula ou no líquido ao redor de determinados implantes texturizados. |
Como é feito o tratamento?
O explante mamário é atualmente a principal intervenção associada à melhora dos sintomas atribuídos à BII, embora a resposta não seja igual para todas as pacientes.
Após investigação adequada e exclusão de outras causas, algumas pacientes podem optar pelo acompanhamento clínico, enquanto outras podem considerar o explante, de acordo com a intensidade dos sintomas, seu impacto na qualidade de vida e suas preferências.
Quando o explante pode ser considerado?
Em pacientes com implantes de silicone que apresentam sintomas sistêmicos persistentes, sem outra causa identificada após investigação diagnóstica adequada, a retirada dos implantes pode ser considerada.
A realização do explante permite avaliar se existe relação entre os sintomas e a presença das próteses. A decisão deve sempre ser individualizada e tomada após avaliação médica especializada.
O que acontece após o explante?
A maioria das pacientes relatam melhora dos sintomas após a retirada dos implantes com taxas variando entre 75-96% nos diferentes estudos. ³ ⁴
Entretanto, os resultados variam individualmente. Muitas mulheres apresentam melhora significativa, enquanto outras permanecem sintomáticas mesmo após o explante. Por isso, é fundamental que as expectativas sejam discutidas de forma realista durante a avaliação médica.
Estudos sugerem que pacientes que retiram os implantes antes de completar 10 anos da colocação podem apresentar maior melhora dos sintomas do que aquelas que realizam o explante após esse período.²
Uma dúvida frequente é se a remoção completa da cápsula é necessária para obter melhora. As evidências atuais indicam que o tipo de capsulectomia não parece influenciar significativamente os resultados. A escolha da técnica deve considerar aspectos cirúrgicos, a posição do implante e as preferências da paciente.5
Experiência clínica da Dra. Mariana Alcantara
Muitas pacientes com sintomas sistêmicos que suspeitam estar relacionados aos implantes já passaram por diferentes profissionais em busca de uma explicação e podem se sentir perdidas. Por isso, o acolhimento e a escuta atenta são fundamentais.
O aconselhamento deve ser franco, equilibrado e baseado nas melhores evidências disponíveis. A decisão pelo explante deve ser compartilhada com a paciente, considerando o impacto dos sintomas na qualidade de vida e o alinhamento de expectativas realistas sobre os resultados.
Embora muitas pacientes apresentem melhora após a cirurgia, isso não ocorre em todos os casos.
Conclusão
A Doença do Silicone (Breast Implant Illness) é um tema ainda em evolução na literatura médica. Embora muitas pacientes relatem sintomas sistêmicos associados aos implantes mamários, ainda não existem mecanismos fisiopatológicos bem definidos nem critérios diagnósticos universalmente aceitos.
Por isso, é fundamental ouvir e avaliar cuidadosamente cada paciente, investigando outras possíveis causas para os sintomas antes de atribuí-los aos implantes.
A avaliação especializada é fundamental para excluir outras causas, esclarecer dúvidas e definir a melhor estratégia para cada paciente, incluindo quando considerar a realização do explante.
Perguntas frequentes
Qual exame detecta a Doença do Silicone?
Não existe atualmente um exame específico capaz de confirmar ou excluir a Doença do Silicone. O diagnóstico é clínico e baseado na exclusão de outras doenças.
Como evitar a Doença do Silicone?
Não existe uma forma comprovada de prevenir completamente a condição. A avaliação médica pré-operatória adequada continua sendo fundamental e a decisão de colocar implantes mamários deve ser individualizada, considerando benefícios esperados versus riscos potenciais.
Qual a chance de desenvolver Doença do Silicone?
Não existem dados precisos sobre sua frequência. A maioria das mulheres com implantes mamários nunca desenvolverá sintomas compatíveis com esse quadro.
O silicone pode causar sintomas mesmo sem estar rompido?
Sim. Muitas pacientes que relatam sintomas atribuídos à Doença do Silicone apresentam implantes íntegros nos exames de imagem.
O explante resolve todos os sintomas?
Não necessariamente. Muitas pacientes relatam melhora parcial ou significativa após o explante, mas os resultados podem variar de pessoa para pessoa.
A Doença do Silicone é a mesma coisa que Síndrome ASIA?
Não. Embora os termos sejam frequentemente associados, representam conceitos diferentes na literatura médica.
A Doença do Silicone aumenta o risco de câncer de mama?
Não há evidências de que a Doença do Silicone aumente o risco de câncer de mama.
Quem tem doença autoimune pode colocar silicone?
A presença de uma doença autoimune não significa automaticamente que a cirurgia esteja contraindicada. No entanto, pacientes com histórico pessoal ou familiar de doenças autoimunes devem discutir os potenciais riscos e benefícios com o cirurgião plástico e o reumatologista, ou imunologista, que acompanha a doença de base.
Referências
- Petritsch J, Nischwitz SP, Holzer-Geissler JC, Lunzer R, Borenich A, Lumenta DB. Breast Implant Illness: Are We Measuring What Matters? A Systematic Review of Symptom Variability and the Impact of Methodology. Plast Reconstr Surg. 2026 Mar 10.
- Spit KA, Scharff M, de Blok CJ, Niessen FB, Bachour Y, Nanayakkara PW. Patient-reported systemic symptoms in women with silicone breast implants: a descriptive cohort study. BMJ Open. 2022 Jun 9;12(6):e057159.
- Ferreira S, Barros AS, Marques M. Breast Implant Illness: Symptoms, Outcomes with Explantation and Potential Etiologies-A Systematic Review and Metaanalysis. Aesthetic Plast Surg. 2025 Dec;49(23):6600-6620.
- Suh LJ, Khan I, Kelley-Patteson C, Mohan G, Hassanein AH, Sinha M. Breast Implant-Associated Immunological Disorders. J Immunol Res. 2022 May 4;2022:8536149.
- Glicksman C, McGuire P, Kadin M, Lawrence M, Haws M, Newby J, Ferenz S, Sung J, Wixtrom R.
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