BIA-ALCL: o que é o linfoma associado à prótese de silicone?
Dra. Mariana Alcantara
CRM-SP 150504 | RQE 65.761
Cirurgiã plástica formada pela UNIFESP e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Atua em cirurgia mamária estética e reparadora, com foco em indicação criteriosa, segurança, naturalidade e respeito à individualidade de cada paciente.
A divulgação de casos de BIA-ALCL costuma gerar preocupação em mulheres que possuem próteses mamárias.
É essencial compreender essa condição corretamente: o BIA-ALCL não é um câncer de mama, mas um tipo raro de linfoma que pode surgir no líquido ou na cápsula ao redor do implante.
Neste artigo, explicaremos quais são os sinais de alerta para BIA-ALCL, quais implantes estão mais associados e quando é necessário procurar avaliação médica.
Principais pontos que você precisa saber
- É um tipo raro de linfoma, e não um câncer de mama.
- Desenvolve-se principalmente no líquido ou na cápsula ao redor do implante.
- A associação é predominante com implantes de superfície texturizada.
- O sintoma mais característico é o surgimento do seroma tardio unilateral: um acúmulo de líquido ao redor da cápsula e do implante.
- Não existe recomendação de realizar a retirada profilática de implantes texturizados em mulheres sem sintomas.
- O BIA-ALCL tem cura, e o prognóstico costuma ser muito favorável quando a doença é diagnosticada precocemente e removida por completo.
O que é BIA-ALCL?
O BIA-ALCL (sigla em inglês para linfoma anaplásico de grandes células associado a implante mamário) é um tipo raro de câncer do sistema linfático relacionado a implantes mamários de superfície texturizada.
É importante deixar claro um ponto que costuma gerar dúvida: o BIA-ALCL não é um câncer de mama. Ele não se origina de células do tecido mamário. Na maioria dos casos, ele se desenvolve no líquido (seroma) ou na cápsula de cicatrização ao redor da prótese, afetando um tipo de célula de defesa chamado linfócito T, daí o nome linfoma.
A doença passou a ser reconhecida oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma entidade específica de linfoma associado a implantes mamários em 2016.
Quais são os sintomas do BIA-ALCL?
O sintoma mais comum do BIA-ALCL é o acúmulo de líquido ao redor da prótese anos após a cirurgia, chamado de seroma tardio. Ele pode causar aumento do volume da mama, assimetria ou sensação de peso e pressão local.
Toda paciente que notar um aumento de volume da mama muito tempo após a cirurgia deve procurar avaliação médica para investigação diagnóstica. Na grande maioria das vezes, o seroma tardio tem causas benignas, mas deve ser investigado para descartar o BIA-ALCL.
Com menor frequência, a doença também pode se manifestar como dor ou endurecimento da mama, nódulos (caroços) palpáveis nas mamas e aumento dos gânglios (linfonodos) regionais.
Quanto tempo depois da cirurgia o BIA-ALCL pode aparecer?
Em geral, o BIA-ALCL pode aparecer entre 8 e 11 anos após a colocação do implante, embora o intervalo possa variar consideravelmente.
Os estudos que acompanharam pacientes ao longo do tempo mostram que o risco se acumula conforme os anos de convívio com o implante texturizado, tornando-se mais expressivo a partir de uma década de uso. Por isso, o acompanhamento continua importante mesmo muitos anos depois de colocar a prótese.
Todo líquido ao redor da prótese significa BIA-ALCL?
Não.
A presença de uma pequena quantidade de líquido ao redor do implante pode ser normal e é relativamente comum. E mesmo quando aparece um acúmulo maior anos depois da cirurgia, na maioria das vezes a causa é benigna, como trauma na região, infecção, um pequeno sangramento, ruptura do implante ou outras condições benignas.
No entanto, como o seroma tardio é a manifestação mais comum do BIA-ALCL, todo acúmulo novo de líquido ao redor da prótese deve ser avaliado e, quando indicado, submetido à punção e à análise laboratorial para investigação diagnóstica.
Quais próteses estão associadas ao BIA-ALCL?
O BIA-ALCL está associado principalmente ao histórico de exposição a implantes texturizados. Até o momento, não há casos confirmados em pacientes que tenham utilizado exclusivamente implantes lisos.
Os mecanismos que levam ao desenvolvimento da doença ainda não são totalmente compreendidos, mas acredita-se que a rugosidade da superfície do implante tenha papel central: quanto mais áspera a textura, maior o estímulo inflamatório crônico sobre as células de defesa ao redor da prótese.
Próteses texturizadas
Entre as próteses texturizadas, o risco está relacionado ao grau de rugosidade da superfície. A associação com o BIA-ALCL foi observada em superfícies com rugosidade superior a 10 μm, também conhecidas como macrotexturizadas.
Próteses lisas
Até o momento, não há nenhum caso confirmado de BIA-ALCL em pacientes com histórico exclusivo de implantes lisos.
Fabricante do implante
O fator que determina o risco é o tipo de textura, e não a marca. Ainda assim, implantes macrotexturizados de um fabricante específico (Allergan Biocell) concentraram a maioria dos casos e foram retirados do mercado em 2019.
Qual é o risco de desenvolver BIA-ALCL?
O BIA-ALCL é uma doença rara.
Entre mulheres com histórico de implantes texturizados, o risco estimado ao longo da vida varia de aproximadamente 1 em 2.000 a 1 em 86.000, dependendo principalmente do tipo de textura e do tempo de exposição ao implante. Em geral, implantes com superfícies mais rugosas, especialmente os macrotexturizados, estão associados a maior risco.
Quem tem prótese texturizada precisa retirá-la?
Não. Para pacientes assintomáticas com implantes texturizados, a retirada preventiva das próteses não é recomendada pelo FDA, sociedades médicas ou diretrizes internacionais.
A conduta deve incluir orientação sobre os sinais de alerta, acompanhamento periódico e decisões individualizadas, que considerem as preferências de cada paciente e discussão informada sobre riscos e benefícios.
Caso a paciente opte pela retirada do implante, a capsulectomia total pode ser considerada, embora seu benefício preventivo não esteja comprovado. Na presença de sintomas suspeitos, é fundamental realizar a investigação adequada antes de qualquer cirurgia.
O que fazer ao perceber um sintoma?
Procure avaliação médica imediata para realizar a avaliação clínica e os exames de investigação diagnóstica recomendados o mais brevemente possível.
O seroma tardio é a apresentação mais comum de BIA-ALCL e deve ser investigado por meio de um protocolo diagnóstico específico.
Como é feito o diagnóstico do BIA-ALCL?
A investigação diagnóstica do BIA-ALCL envolve avaliação clínica, realização de exames de imagem, punção e análise do líquido ao redor da prótese.
Avaliação clínica e exames de imagem
Durante a avaliação clínica, são considerados o histórico da paciente, o tempo desde a cirurgia de colocação do implante atual, os sintomas apresentados e os achados do exame físico.
A ultrassonografia é o exame inicial de escolha quando há suspeita de BIA-ALCL. Ela permite:
- identificar e medir o acúmulo de líquido ao redor da prótese;
- verificar a presença de massas junto à cápsula;
- avaliar os linfonodos regionais, especialmente os axilares;
- orientar a punção do líquido, que deverá ser encaminhado para análise laboratorial.
Punção e análise do líquido ao redor da prótese
Quando a ultrassonografia identifica uma coleção líquida suspeita, o próximo passo é realizar uma punção aspirativa guiada pelo exame. Sempre que possível, deve-se retirar todo o líquido para análise.
Na solicitação laboratorial, é fundamental informar claramente que se trata de uma investigação para BIA-ALCL, pois isso orienta a realização dos testes específicos necessários.
A punção é uma etapa essencial da investigação, mas a retirada do líquido, por si só, não confirma o diagnóstico. A amostra deve ser analisada em laboratório por meio de avaliação microscópica das células e de testes específicos, como a pesquisa do marcador CD30, que ajudam a confirmar ou excluir o diagnóstico.
Como é feito o tratamento do BIA-ALCL?
Após a confirmação do diagnóstico, são realizados exames para determinar a extensão da doença, geralmente incluindo o PET-CT.
Na maioria dos casos, o BIA-ALCL está restrito ao líquido e à cápsula ao redor do implante. O tratamento consiste na retirada do implante e de toda a cápsula, idealmente em uma única peça. A retirada do implante e da cápsula da outra mama também costuma ser recomendada. Quando a doença é completamente removida, a cirurgia é frequentemente curativa e, em geral, não são necessárias terapias adicionais.
Quando o BIA-ALCL ultrapassa a cápsula, atinge os linfonodos ou não pode ser completamente removido, podem ser indicados tratamentos complementares, como radioterapia, terapia-alvo dirigida ao CD30 e quimioterapia. A conduta deve ser definida por uma equipe multidisciplinar, de acordo com a extensão da doença e as características de cada paciente.
O BIA-ALCL tem cura?
Sim.
Na maioria dos casos, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente e a doença está restrita à cápsula ao redor do implante, a remoção completa do implante e da cápsula é frequentemente curativa.
Existe exame preventivo para detectar o BIA-ALCL?
Não existe um exame preventivo de rotina recomendado para rastrear o BIA-ALCL em pacientes assintomáticas. Ultrassonografias e ressonâncias magnéticas podem ser indicadas para avaliar a integridade dos implantes mamários, mas não são utilizadas como exames de rastreamento desse linfoma.
A principal medida é conhecer os sinais de alerta e manter o acompanhamento médico. Caso surjam aumento do volume da mama, assimetria, endurecimento, dor ou nódulo, a investigação geralmente se inicia com a ultrassonografia.
Perguntas frequentes
Prótese de silicone pode causar câncer?
Não. Os implantes mamários não aumentam o risco de câncer de mama. Entretanto, estão associados a um risco muito baixo de algumas malignidades raras relacionadas ao implante, especialmente o BIA-ALCL (linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário).
Como saber se minha prótese é lisa ou texturizada?
Essa informação pode ser verificada no cartão de identificação da prótese ou no relatório da cirurgia, que registram a marca e o modelo do implante. Se você não tiver esses documentos, solicite-os ao cirurgião ou ao hospital onde realizou o procedimento.
Tenho uma prótese Allergan BIOCELL® ou outro implante retirado do mercado. Preciso removê-lo?
Não necessariamente. Para pacientes sem sintomas, a retirada preventiva não é recomendada de forma rotineira. A decisão deve ser individualizada, considerando o modelo do implante, o tempo de uso e a avaliação médica.
Tenho uma prótese texturizada. Vale a pena trocá-la por uma lisa para reduzir o risco de BIA-ALCL?
Não necessariamente. A troca profilática de implantes texturizados por lisos em pacientes assintomáticas não é recomendada de forma rotineira pelas principais organizações médicas. Até o momento, não há evidências de que essa estratégia elimine completamente o risco de BIA-ALCL.
Na retirada preventiva da prótese, é necessário remover toda a cápsula ou fazer a retirada em bloco?
Não. Em pacientes assintomáticas, não há evidências de que a retirada completa da cápsula ou a remoção em bloco previnam o BIA-ALCL. Quando não há outra indicação clínica para remover a cápsula, a conduta deve ser individualizada e discutida com o cirurgião plástico.
Saiba mais no artigo Capsulectomia total ou parcial: qual a diferença e quando cada técnica é indicada?
O BIA-ALCL é a mesma coisa que contratura capsular, ruptura da prótese ou Doença do Silicone?
Não. Embora todas possam estar relacionadas aos implantes mamários, são condições diferentes.
O BIA-ALCL é um tipo raro de linfoma associado aos implantes texturizados. A contratura capsular é o endurecimento da cápsula ao redor do implante, e a ruptura acontece quando o revestimento da prótese se rompe. Já a Doença do Silicone é um termo usado para descrever sintomas sistêmicos atribuídos por algumas pacientes aos implantes mamários, cuja causa ainda não está completamente esclarecida.
Referências
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