Capsulectomia total ou parcial: qual a diferença e quando cada técnica é indicada?
Dra. Mariana Alcantara
CRM-SP 150504 | RQE 65.761
Cirurgiã plástica formada pela UNIFESP e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Atua em cirurgia mamária estética e reparadora, com foco em indicação criteriosa, segurança, naturalidade e respeito à individualidade de cada paciente.
Após entender o que é a capsulectomia, a dúvida mais comum passa a ser outra: afinal, é sempre necessário retirar toda a cápsula?
A resposta é não. Em muitas pacientes, a remoção parcial ou subtotal pode oferecer resultados semelhantes, com menor complexidade cirúrgica, enquanto em outras situações a capsulectomia total é a abordagem mais indicada.
Para entender o que é a cápsula e quando a capsulectomia é indicada, leia nosso guia completo sobre capsulectomia.
Principais pontos
- A remoção da cápsula pode ser parcial, subtotal ou total.
- Nem toda paciente necessita retirar toda a cápsula.
- A capsulectomia total é mais extensa e pode ser tecnicamente mais complexa.
- Em alguns casos, a remoção parcial oferece melhor relação entre benefício e segurança.
- O explante em bloco não é a mesma coisa que capsulectomia total tem indicações específicas.
- Não existem evidências robustas de que a capsulectomia total é superior à parcial para melhorar os sintomas sistêmicos da Doença do Silicone.
- A decisão deve ser sempre individualizada.
Capsulectomia parcial, subtotal ou total: qual é a diferença?
Capsulectomia parcial
A cápsula é parcialmente liberada ou removida.
A capsulectomia parcial pode incluir:
- Remoção de apenas uma porção da cápsula, por exemplo, apenas a porção anterior da cápsula de implantes submusculares.
- Capsulotomia: abertura ou liberação de áreas específicas, sem remoção extensa da cápsula. Essa técnica é frequentemente utilizada quando desejamos criar mais espaço para o implante de silicone, nos casos de troca de prótese.
- Remoção da maior parte da cápsula, preservando apenas pequenas áreas fortemente aderidas a estruturas profundas, como músculo e parede torácica. Essa técnica também é conhecida como “capsulectomia subtotal”.
Possíveis vantagens: menor tempo cirúrgico, menor risco de sangramento e de lesão de estruturas profundas como músculo e parede torácica.
Possíveis limitações: pode não ser adequada em situações específicas de alterações capsulares severas ou suspeita de doença capsular.
Capsulectomia total
Remoção completa da cápsula ao redor do implante.
Possíveis vantagens: remoção completa do tecido fibrótico ao redor do implante. Essa técnica é especialmente considerada em pacientes com contratura sintomática importante que apresentam cápsulas calcificadas ou espessadas e, também, quando há suspeita de patologia capsular.
Possíveis limitações: cirurgia tecnicamente mais complexa, com maior tempo operatório e maior risco de complicações. A capsulectomia total exige uma área de descolamento maior e pode dificultar a realização de procedimentos complementares como a lipoenxertia.¹
A remoção completa da cápsula e "explante em bloco" são a mesma coisa?
Não. Essa diferença já foi explicada em detalhes no nosso guia completo sobre capsulectomia.
É importante saber que nem toda capsulectomia total é realizada em bloco, e nem toda paciente necessita de explante em bloco.
A capsulectomia total remove toda a cápsula ao redor do implante. Entretanto, a cápsula pode ser aberta durante a remoção para facilitar a dissecção e o implante é removido separadamente da cápsula. A cápsula é dissecada e removida em fragmentos ou peças, conforme necessário.
Na capsulectomia "em bloco" ou "explante em bloco" a cápsula é removida intacta com o implante dentro dela. Nessa técnica a cápsula não é aberta durante a cirurgia e, dessa forma, implante e cápsula são removidos como uma peça única que inclui também uma margem de tecido saudável ao redor da cápsula.
O explante em bloco é reservado para situações em que existe suspeita ou confirmação de BIA-ALCL, um tipo raro de linfoma associado principalmente a implantes texturizados. Esta é a única indicação baseada em evidência científica para ressecção em bloco.²
O explante em bloco está indicado para casos suspeitos ou confirmados de BIA-ALCL, um tipo raro de linfoma associado principalmente a determinados implantes texturizados.
Quando a remoção completa da cápsula pode ser indicada?
Entre as situações em que a remoção completa da cápsula pode ser considerada estão:
- contratura capsular severa (graus III-IV)
- cápsulas calcificadas ou com fibrose densa
- ruptura extracapsular do implante
- sintomas ou achados cirúrgicos sugestivos de patologia capsular
- casos selecionados de cirurgia de revisão mamária com troca do plano do implante
Cada situação deve ser avaliada individualmente para que a decisão pela capsulectomia total seja adequada.
E nos casos de Doença do Silicone (Breast Implant Illness)?
Outra questão importante envolve pacientes com sintomas sistêmicos atribuídos aos implantes mamários, conhecidos como Breast Implant Illness (BII) ou Doença do Silicone.
Embora os mecanismos envolvidos não estejam totalmente esclarecidos, estudos prospectivos observaram melhora significativa dos sintomas após o explante, independentemente do tipo de capsulectomia realizada ter sido parcial, total ou "em bloco".³
Esses resultados sugerem que a retirada dos implantes pode ser o principal fator associado à melhora dos sintomas, independentemente da extensão da remoção da cápsula.
Por isso, na ausência de suspeita de BIA-ALCL, a escolha da abordagem da cápsula deve ser individualizada, considerando segurança cirúrgica, características anatômicas, histórico da paciente e objetivos do tratamento.
A remoção completa da cápsula é mais arriscada do que a parcial?
De modo geral, sim.
Por ser uma cirurgia mais extensa e com maior área de descolamento, a capsulectomia total costuma estar associada a maior tempo operatório, maior risco de complicações como sangramento, seroma e lesão de estruturas adjacentes, como o músculo peitoral.
Isso não significa que seja inadequada. Significa que a capsulectomia total deve ser realizada quando existe indicação clara e benefício potencial compatível com os riscos envolvidos.
Como a decisão é tomada na prática?
Não existe uma abordagem única para todas as pacientes.
A escolha entre capsulectomia parcial, subtotal ou total depende de diversos fatores:
- motivo da cirurgia
- presença de contratura capsular
- estado do implante, se íntegro ou roto
- aspecto e características da cápsula
- definição da técnica de remodelação das mamas após o explante
- histórico médico
- objetivos e preferências da paciente
A decisão não é apenas sobre a quantidade de cápsula a ser removida. Na prática, considero que o planejamento cirúrgico personalizado tem como objetivo alcançar o melhor equilíbrio entre benefício e segurança.
Em algumas pacientes, insistir na remoção de pequenos fragmentos fortemente aderidos ao músculo peitoral ou à parede torácica podem aumentar a complexidade da cirurgia sem oferecer benefício clínico comprovado. Por isso, a avaliação individualizada é o principal fator para definir a melhor estratégia cirúrgica.
Perguntas frequentes
Toda paciente que faz explante precisa retirar toda a cápsula?
Não necessariamente. A indicação depende da condição da cápsula, dos sintomas, dos obje vos da cirurgia e do histórico da paciente.
Explante em bloco é sempre melhor?
Não. Essa técnica possui indicações específicas e não deve ser realizada de ro na em todas as pacientes.
Retirar toda a cápsula melhora mais os sintomas da Doença do Silicone?
Os estudos atuais não mostram que a remoção completa da cápsula seja superior à capsulectomia parcial na melhora dos sintomas sistêmicos atribuídos aos implantes de silicone.
O que acontece se parte da cápsula não for retirada?
Pequenas áreas residuais da cápsula podem permanecer sem causar sintomas ou complicações. Com o tempo, esse tecido pode sofrer remodelação, embora em alguns casos possa aparecer nos exames de imagem como calcificações, cistos encapsulados ou áreas que exigem avaliação complementar.
A preservação de parte da cápsula pode ser indicada quando sua remoção completa acrescenta riscos cirúrgicos sem benefício comprovado à paciente.
A cápsula desaparece sozinha após a retirada da prótese?
A cápsula não desaparece imediatamente após o explante. Pequenas áreas residuais podem sofrer remodelação e afinamento ao longo do tempo, embora sua reabsorção completa não seja garantida.
Referências
- Xu HH, Abi-Rafeh J, Davison P, Winocour S, Matros E, Vorstenbosch J. Complications of Aesthetic and Reconstructive Breast Implant Capsulectomy: An Analysis of 7486 Patients Using Nationwide Outcomes Data. Aesthet Surg J. 2024 Aug 20;44(9):936-945.
- Jaffe ES, Ashar BS, Clemens MW, Feldman AL, Gaulard P, Miranda RN, Sohani AR, Stenzel T, Yoon SW. Best Practices Guideline for the Pathologic Diagnosis of Breast Implant-Associated Anaplastic Large-Cell Lymphoma. J Clin Oncol. 2020 Apr 1;38(10):1102-1111.
- Glicksman C, McGuire P, Kadin M, Lawrence M, Haws M, Newby J, Ferenz S, Sung J, Wixtrom R. Impact of Capsulectomy Type on Post-Explantation Systemic Symptom Improvement: Findings From the ASERF Systemic Symptoms in Women-Biospecimen Analysis Study: Part 1. Aesthet Surg J. 2022 Jun 20;42(7):809-819.







